FARELOS AZUIS. E CLAROS. OU TENTATIVA DELES. início | contato

Agosto 3, 2008

Eu tenho 125 pregos no coração. Eu sei disso porque na semana passada acordei com a cama cheia de sangue. Era um sangue claro, que molhava a cama e o chão. Eu chamei todo mundo de perto para ver, mas ninguém conseguiu. Alguns disseram que era só um pouco de água, outros, mesmo sem crer, pediram para que limpasse. Eu deixei como estava, e durante o dia secou. Nos seguintes, ele apareceu mais claro, noutros mais grosso, mas eu conseguia sentir, todos os variados dias, cada um dos 125 pregos. Minha mãe disse que, na minha idade, quem sente dor no peito tem gases. Eu tomei remédio e não passou. Procurei sangue vertido por pregos na cama dos meus pais, mas não havia. Nem na do meu irmão. Fiquei então pensando que eles acordavam cedo todo dia da semana para limpar o sangue do chão e trocar seus lençóis sujos, e achei aquilo muito nobre. Hoje, quando acordo e o sangue me banha de manhã, eu pego detergente e água, e ponho a colcha na máquina de lavar. O problema é o peito, que dizem ser gases, mas me dóem cada um dos 125 pregos.

"Quando a vontade e o oxigênio começaram a rarear, os insetos que dividiam o mesmo espaço passaram a partilhar do mesmo tempo. Para mim, todos os insetos eram iguais. Eu não sabia que era preciso fazer furos na tampa do pote. Eu não sabia que partilhamos o mesmo espaço, mas não partilhamos o mesmo tempo."
(Lourenço Mutarelli)

diana melo - 17:40 [+]
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Julho 28, 2008
"barco ao mar
o chão é um vagar sem fim
aportar sem que haja porto
eu sei que meu lugar nunca é aqui
então vou sem que saiba pra onde
estou sempre longe
preciso ainda seguir"

diana melo - 01:27 [+]
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Junho 4, 2008
Já sei mais ou menos o que quero construir. Deus há de me perdoar por querer tão pouco. Mas é tanto isso que imagino, para depois que me for, lá do alto das estrelas, ter coisa para doer de saudade. Construir um pequeno reino, para depois ir embora, até outro lugar erguer novo castelo, um castelinho, para deixá-lo em ruínas, visando a sorte de um terreno fértil, para depois ir embora e doer tudo dentro. Como um caixeiro viajante.

diana melo - 23:27 [+]
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Março 27, 2008
"Há folhas no meu coração.
É o tempo."

(Aldir Blanc/Cristóvão Bastos)

diana melo - 19:21 [+]
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Fevereiro 14, 2008
O pátio estava cheio de crianças por todos os seus lados, conversas fiadas dos grupos em concentração, bananas carameladas nas mãos e futebol. Lina encolhia os braços por entre as pernas, limpando o açúcar molhado da banana no chão.
- Ah, Lina, você não é de muitas palavras, já percebi. Hoje todos na maior conversa e você aí, sujando o que devia comer. - Marinice falava angustiada, com a boca melada de banana com areia, limpando os restos do mel pelas calças.
- Você não conversa, eu sei, sou muito astuta, entenda. Mas te aceito, sou sua amiga, não vê que perco meu tempo para conversar com você? - Insistiu o tipinho engraçado e redondo dos pés à cabeça, aperreada a encarar Lina, cada vez mais parecida com um caracol. Agora um caracol vermelho e lambuzado.
- Ei, Lina, você é muda, mas eu te gosto. Não esquenta, não. Até que você é legalzinha, mesmo muda muda muda igual uma porta. - Lina olhou para gorda Marinice e não conteve o choro. - Lina, não chora, deixa de ser esquisitinha. - O choro aumentou e Marinice apertou suas cheias mãos sobre o ombrinho da amiga sentada no chão, toda suja, e repetiu: - Mas eu gosto de você, doidinha. - Marinice era doce e terrível. Os meninos do pátio eram doces e terríveis. Lina era doce e terrível.

Lembranças açucaradas de Lina numa tarde de verão, vinte e dois anos depois.

diana melo - 22:45 [+]
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Outubro 16, 2007
Canções de nunca acabar

Had Gadia. "Meu pai o comprou por apenas dois suz/O cordeiro! O cordeiro!/Meu pai o comprou por apenas dois suz/Assim conta a Haggada/Astuto, o gato ficou à espreita/Ele atirou-se sobre o cordeiro e o devorou/O cão que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro/Que meu pai comprou por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro!/Então veio o bastão/E se abateu sobre o cão/Que mordeu o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Ele o comprou por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro!/Então veio o fogo e consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro!/Então a água veio apagar o fogo/Que consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/O boi que passava por ali bebeu a água que apagou o fogo/Que queimou o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/Veio o açougueiro que matou o boi que bebeu a água/Que apagou o fogo/Que consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Então veio o Anjo da Morte que matou o açougueiro/Que matou o boi que bebeu a água/Que apagou o fogo/Que consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/Por que você canta então o cordeiro?/A primavera não está aqui ainda, nem a Páscoa/Você mudou/Eu mudei este ano/E todas as noites,/Como cada noite/Eu fiz apenas quatro perguntas/Mas esta noite, me vem uma outra pergunta/Até quando durará esse ciclo infernal/Essa noite me vem uma pergunta/Até quando durará esse ciclo infernal?/Do opressor e do oprimido,/Do carrasco e da vítima/Até quando essa loucura/Alguma coisa mudou/Eu mudei este ano/Eu era um cordeiro bom/Eu me tornei um tigre/e um lobo selvagem/Eu era uma pomba, uma gazela/Hoje eu não sei quem eu sou/Meu pai o comprou por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/Nosso pai o comprou por apenas dois suz/E voltamos ao ponto de partida"

diana melo - 00:16 [+]
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Agosto 2, 2007
Começam os primeiros sinais da noite. O sino da igreja badala seis vezes, os passarinhos cantam em coro, os carros páram todos em fila no sinal, e estou à beira da porta, indo embora, meu amigo. Daquelas despedidas graves, escurecidas, silenciosas. Indo embora para nunca mais voltar.

"- Senhor meu - respondeu Sancho - retirar-se não é fugir; nem no esperar vai prova de sisudeza quando a coisa é mais perigosa que bem figurada. Próprio dos sábios é o pouparem-se de hoje para amanhã; e saiba Sua Mercê que um ignorante e rústico pode mesmo assim acertar uma vez por outra com o que chamam regras de bem governar. Portanto não lhe pese de haver tomado o meu conselho; monte no Rocinante, se pode, ou eu o ajudarei, e siga-me, que me diz uma voz cá dentro que mais úteis nos podem nesta ocasião os pés que as mãos".
(Cervantes)

diana melo - 15:10 [+]
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Julho 13, 2007
encontre-me na venda de carnes

O cheiro que subia do balcão e das geladeiras, mesmo fechadas, escondia a força de qualquer outro sentido que não fosse do olfato. Ela esfregou a manga do vestido florido no nariz, tentando ser discreta, era só uma coceirinha, quis fingir, e fungou para justificar tanto o pano visitado.
- Quatrocentas gramas de picanha, ok? - Uma mosca pousou sobre o nariz arrebitado. Era apenas uma de tantas que sobrevoavam os pedaços de bois avermelhados, músculos e costelas amontoados pelo balcão. - Essa aqui é fresquinha, chegou hoje. - Ela ainda fingiu uma gripe para tapar o nariz vez ou outra, e olhou as mãos ensangüentadas do açougueiro. Um anel de ouro fosco tentava brilhar sob o sangue. - Pode ser essa! - Escolheu. - Mas me diga uma coisa o senhor, tão moço, já trabalha aqui faz tempo? - E olhava insistente o anel. Nem ouviu direito a resposta. Os outros sentidos começavam a ignorar o cheiro de carne, e só conseguia pensar nas mãos bonitas, aquelas, que rosto aquele, tão novo, já trabalhava muito, lembrava dele dizendo, algo como sim senhora, desde menino. E o pior de tudo era que mesmo tão moço, além de trabalhar, já segurava um anel.
A caminho de casa, não conseguia esquecer das mãos e do sorriso. Seu cheiro de carne ficara impregnado no nariz arrebitado, em todo o vestido florido, em toda sua pele. - Mas é casado, o menino. - Suspirou, enquanto salgava a picanha.
O sol ainda estava fraco quando saiu para comprar mais pedaços esquartejados de bodes e bois. Colocou o vestido florido, contou o dinheiro e perfumou-se. Um pouquinho também no nariz, quem sabe assim o cheiro podre não deixava vertigem. Não é nem preciso julgar-se esperto para entender porque estava ali no dia seguinte, e porque resolveu ir em todos os outros que conseguiu. Belos vestidos, boas colônias e dinheiro. Os olhos brilhavam sobre o anel de brilho parco. As visitas diárias também vinham cheias de uma esperança mordaz, uma vontade de que, como por encanto, aquele anel desaparecesse. Queria encontrá-lo magro, triste, de olhos fundos como os dela estavam, pensando tanto nas mãos do açougueiro, querendo ouvir da boca dele, com as mãos órfãs do anel, um desabafo de que a mulher o deixara. Mas quantos e quantos dias consumiram-na, e que ela consumiu a comprar carnes, a olhar para ele, obcecada por encontrar as belas mãos sem o maldito laço dourado sempre banhado em sangue. E quando a boca vai aos olhos, até mesmo os mais dispersos percebem, o homem notou que a dona dos vestidos floridos, sempre perseguindo-o com a vista, arrastava todas as barras de panos por ele. A resposta veio de imediato, que nunca mais a atendeu. Também dos sujeitos mais aéreos percebem o desprezo. Dia após dia ela insistiu em visitá-lo, a pretexto de lagartos, picanhas e bistecas, esperando o dia de vê-lo sorrindo, exibindo os dedos sem a aliança. Mas o desejo só nutria a frustração, até que morresse aquela planta verde e robusta de expectativas. Sim, murchou. Durante os dias que seguiram à morte da planta, resolveu mudar o caminho. Vestiu seu vestido de flores e andou pela rua paralela à que gostaria de estar, com a certeza de uma dor que se perdia por outros odores de frutas e verduras misturados às carnes congeladas de um supermercado.



diana melo - 11:17 [+]
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Junho 22, 2007
inspiração

Pediu o arroubo das boas idéias ao puxar, insistentemente, os cabelos. Mas só tentava e lembrava, meu Deus, tantos dias meses anos perdidos por becos sombrios da própria cabeça, tudo uma barra. Nascera uma barra. O primeiro bicho que viu na vida foi um rato branco, tão belo que apertou a barriga até parar de mover o fucinho. Criou vergonha um dia e parou com isso, depois de dois preás mortos e quase um gato. Mas nem era de todo barra. Hoje avisava quando qualquer um deles se aproximava. - Sequer pisem o rabo, ou machuquem! - Horror lembrar o rato entre os dedos, sem nunca conseguir seu perdão. Talvez a barra fosse aí. Tanta rigidez que estalava o pescoço. Puxou ainda mais os cabelos à procura de novas idéias, algo que saísse dos pensamentos escuros, da lembrança do roedor. - Quando crescer, quero me permitir a tolice. - E de tanto puxar os fios, a cabeça clareou. Queria pensar em flores, e pensou. Pela primeira vez, como quem aprende a andar, dançou.

"Você é engraçado, meu caro, tem um medo tão louco de se iludir a si mesmo que recusaria a mais bela aventura do mundo para não se arriscar a uma mentira."
(sartre; a idade da razão)

diana melo - 18:12 [+]
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Maio 24, 2007
fios

Sentiu uma mão a tocar suas costas no meio da sala de aula. Marisa tirava cuidadosamente um fio.
- Meu cabelo cai tanto assim.
Marisa concordou com a cabeça e continuou a tirar concentrada, mais uns três ou quatro que ainda vira na blusa preta. E uma sensação qualquer de preenchimento tomou-lhe por dentro. Sabia, porque a vida disse, que do zelo sem pretensão brota, que nem mato do chão com qualquer chuva, a tal da cumplicidade.

zilli

Então o passarinho morde a corda que imagina existir no bico e sacode as penas sujas e poeirentas. O passarinho laranja sacode as penas pesadas (molharam-nas, alguém viu?). Ele estica os ossos magrinhos para que desadormeçam, e ergue os olhos grandes e amarelos. Olhos que até um gato temeria, mesmo sentindo um maldito cheiro de plumagem molhada. Depois mexe as asas, e do erguer dos tais olhos assustadores vê a bola gorda da cor dos dele.
Pois existe o sol, mais forte do que nunca, de claridade terrivelmente independente daquela sombra que pesava sobre as penas. Pensava assim, terrivelmente, porque tinha orgulho. Todos aqueles que buscam o flagelo voluntário não entedem a beleza do troço que ilumina toda a terra, sem fazer alarde algum.
Eis um novo paradeiro de ave: silêncio. E o bater de asas.
Ergueu também o bico.
Ainda mais orgulho, passarinho maduro.

diana melo - 15:11 [+]
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Maio 8, 2007
A vida se mostrou cedo, assim como era. Escolho vida só por falta de outra palavra agora. E também por não querer emitir valor a algo que hoje nem sei se me rasgou tanto tempo por motivo de desgraça. E é bom não falar nisso, em desgraça. Não adjetivarei algo que - me repito - nem sei o que dizer de. Ou saiba tanto que não caibam palavras ou diga apenas uma daquelas desculpas dadas quando não saberemos nunca - sim, assim fatalmente - explicar. Então, em um armário grande e branco, no quarto dos fundos da casa de meus pais, guardávamos todas as coisas que começavam a perder valor. Nós quase esquecíamos daquele passado que tornava a criar vida. E de certa forma nos sentíamos culpados. Não sei se pela educação católica de classe média em uma cidade que ainda começava a crescer, quase tudo era pecado. Jogar as coisas fora, por exemplo. Por favor, não entendam que amontoávamos lixo. Não todo e qualquer, é verdade, mas tudo que trouxesse memória empacava por lá. Com uma preguiça mole e lenta deixávamos o lixo crescer também mole e lento. E aquilo ora ou outra nos incomodaria. E eu, naquele tempo de começar a conhecer as coisas, ainda desavisada do peso que tanta quinquilharia deitava sobre nós, dei de divertir-me com ela. Não só com as traças a pregarem sustos nem sempre divertidos, mas os livros e cadernos e fotografias viravam pequenos brinquedos. - Sai dessa poeira, menina! - Ouvia deles, mas era uma poeira nossa, guardada, criada e urdida com fé do medo do desuso. Lá estava eu dez minutos depois dos carões, com a boca entreaberta. Opa, uma traça. E começava a rir, metendo-me debaixo do gigante branco do armário, comendo papéis velhos com elas. Dos velhos cadernos de anotações até um livro de poemas do Casimiro de Abreu, que me perseguiu durante anos. Versos pestilentos de uma valsa sobre um homem solitário, morrendo louco de amor por alguém que bailava e dançava sem ele, que convidou ainda mais a entrar naquele quarto tantas e tantas vezes, até resolver levá-lo comigo. Até hoje.

diana melo - 21:30 [+]
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Maio 4, 2007
A cama esticada esperando meu sono, a luz fraca do abajur tentando dizer algo como tenha calma. É brando o vento que entra pela janela entreaberta. E enorme o desarranjo que se guarda no peito, na barriga, nas coxas. Não é reumatismo. Ainda não. Vontade daquelas das grandes de desaparecer, virar paisagem. Como naqueles desenhos em que alguém encontra uma manta mágica, e ela vira cor de nada como quem pôs, e a gente só vê os outros perguntando: onde raios? - Pois que partam. - Grita o sujeito de sorte, entre os panos.

diana melo - 02:39 [+]
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FARELOS MOFADOS

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