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14.2.08
O pátio estava cheio de crianças por todos os seus lados, conversas fiadas dos grupos em concentração, bananas carameladas nas mãos e futebol. Lina encolhia os braços por entre as pernas, limpando o açúcar molhado da banana no chão.
- Ah, Lina, você não é de muitas palavras, já percebi. Hoje todos na maior conversa e você aí, sujando o que devia comer. - Marinice falava angustiada, com a boca melada de banana com areia, limpando os restos do mel pelas calças.
- Você não conversa, eu sei, sou muito astuta, entenda. Mas te aceito, sou sua amiga, não vê que perco meu tempo para conversar com você? - Insistiu o tipinho engraçado e redondo dos pés à cabeça, aperreada a encarar Lina, cada vez mais parecida com um caracol. Agora um caracol vermelho e lambuzado.
- Ei, Lina, você é muda, mas eu te gosto. Não esquenta, não. Até que você é legalzinha, mesmo muda muda muda igual uma porta. - Lina olhou para gorda Marinice e não conteve o choro. - Lina, não chora, deixa de ser esquisitinha. - O choro aumentou e Marinice apertou suas cheias mãos sobre o ombrinho da amiga sentada no chão, toda suja, e repetiu: - Mas eu gosto de você, doidinha. - Marinice era doce e terrível. Os meninos do pátio eram doces e terríveis. Lina era doce e terrível.
Lembranças açucaradas de Lina numa tarde de verão, vinte e dois anos depois.
diana melo - 22:45 [+]
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