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3.8.08
Eu tenho 125 pregos no coração. Eu sei disso porque na semana passada acordei com a cama cheia de sangue. Era um sangue claro, que molhava a cama e o chão. Eu chamei todo mundo de perto para ver, mas ninguém conseguiu. Alguns disseram que era só um pouco de água, outros, mesmo sem crer, pediram para que limpasse. Eu deixei como estava, e durante o dia secou. Nos seguintes, ele apareceu mais claro, noutros mais grosso, mas eu conseguia sentir, todos os variados dias, cada um dos 125 pregos. Minha mãe disse que, na minha idade, quem sente dor no peito tem gases. Eu tomei remédio e não passou. Procurei sangue vertido por pregos na cama dos meus pais, mas não havia. Nem na do meu irmão. Fiquei então pensando que eles acordavam cedo todo dia da semana para limpar o sangue do chão e trocar seus lençóis sujos, e achei aquilo muito nobre. Hoje, quando acordo e o sangue me banha de manhã, eu pego detergente e água, e ponho a colcha na máquina de lavar. O problema é o peito, que dizem ser gases, mas me dóem cada um dos 125 pregos.
"Quando a vontade e o oxigênio começaram a rarear, os insetos que dividiam o mesmo espaço passaram a partilhar do mesmo tempo. Para mim, todos os insetos eram iguais. Eu não sabia que era preciso fazer furos na tampa do pote. Eu não sabia que partilhamos o mesmo espaço, mas não partilhamos o mesmo tempo."
(Lourenço Mutarelli)
diana melo - 17:40 [+]
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